universidade lusófona

V Ciclo de Conferências Internacionais ECATI/MCB – 2015: «Arte, história e pensamento»

Numa das suas entrevistas, o artista visual alemão Gerhard Richter, fazia a seguinte afirmação, comparando o acto de pintar com o acto de pensar: «pintar não tem nada a ver com o pensar, porque no pintar o pensar é pintar». Søren Kierkegaard havia pensado esta relação do criar com o pensar a partir da noção de paciência, palavra que carrega a noção de tempo, que evoca o tempo como um acto de protelação, como um acto prorrogação voluntária, mas não de postergar. Entre o fazer criador e o pensar está inerente o tempo e este adquire solidez para a cultura na História. Arte, história e pensamento estão sempre unidos. Mas essa união é hoje cada vez mais problemática.

Pretende-se, não somente, apresentar uma sequência de discursos ou de conceitos que foram usados pelas diversas formas de pensar ao longo das épocas, nas formas do fazer artístico. Também não se trata nem de ver conceito e criação como algo do passado, ainda que tenham marcado toda uma possibilidade de categorização do tempo, formando-se em épocas: o clássico, o medieval, o moderno ou contemporâneo. Trata-se, antes, de ver como criar e pensar se reconfiguram, se re-apresentam ainda em algo vivo. A finalidade deste ciclo está traçado pelo espírito de Hegel para quem «o pensamento, o princípio de uma época, é o espírito que tudo penetra.

Este tem de progredir na consciência de si mesmo, e tal progresso é o desenvolvimento de toda a massa, da totalidade concreta; e esta incide na exterioridade e, por conseguinte, no tempo. Visto que a história […] tem a ver com o puro pensamento, é ela também uma ciência, isto é, não um agregado de conhecimento ordenados de um certo modo, mas um desdobramento do pensamento que em si e por si é necessário». É objectivo deste colóquio internacional criar as condições para que o pensar se faça e se objective no diálogo com a criatividade, com o tempo em que ocorre.

Tal requere, necessariamente, que se encare a história do acontecer do pensar e da criação artística, da história do pensamento e da história da arte, não como uma mera sequencialidade de narrativas que tratam conteúdos próprios de um tempo determinado, mas de ver como é que estes se centram numa actividade que se dirige sempre ao real, ao mundo em que se pensa num determinado momento, mas que emerge sempre das contingências próprias que essa epocalidade contém.

Quer-se mostrar, no espectro das diversas formas do pensar e criar históricas, como é que a arte e o pensar pode ser retirado do ‘tempo morto’, do tempo passado, e consequentemente mostrar-se como algo vivo, como pensamentos e obras que podem descolar da circunstância do seu acontecimento real e se podem transferir para o presente em que se pensa e cria.

Voltamos a Hegel ao recordar que «se conceito e realidade se cindem, então o homem morre». Da paciência do voltar atrás, ao passado, da recuperação dos elementos fundamentais da arte e do pensamento, procurar-se fazer um itinerário que esteja assente, preocupado, com o presente.

Quer-se fazer viver um pensar contemporâneo que traga e actue sobre o passado por forma a criar a distância certa que permite ver. É este um processo que se dirige sempre a uma acção contínua, mas que se materializa em formulações contextuais de conteúdo próprio. Pensar sobre os pensamentos de outros, das obras dos outros, de tempos-outros.

Procura-se criar um diálogo entre pensadores e artistas onde se recupere «o que não envelhece com o actualmente vivo». Procura-se, assim, a forma paciente para reagir à crise, procurando no passado vivo os elementos que constituam a sua possível resposta. Um pensar em torno das ligações possíveis, trans-epocais, que sejam verdadeiramente contemporâneas porque históricas.

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