universidade lusófona

VI Ciclo de Conferências Internacionais ECATI/MCB

Sobre o contemporâneo

Tem-se discutido intensamente em torno do contemporâneo.

É conhecido o desprezo teológico e metafísico pelo presente, o aqui e agora, considerados como um momento, uma passagem, algo efémero, cuja única justificação é conduzir-nos a um futuro magnífico (ou retornar-nos a um passado perfeito). O presente é visto como uma espécie de larva da qual deveria eclodir uma bela mariposa. Mas uma mariposa, se fotografada e aumentada, torna-se algo de assustador e o século passado foi a revelação da monstruosidade da estratégia larvar e o fim das mariposas históricas. Vai restando sempre a crítica do “presentismo” (Fr. Hartog) e a enésima denúncia da “positividade”, suspeita de conivências com os senhores e donos do mundo. Na prática nunca se esteve noutro tempo que não o aqui e agora, que se transmite de mão em mão desde a pré-história e que continuará… se houver mãos e enquanto existirem. É, no entanto, sintomático que, um pouco por todo o lado, tenham vindo a surgir defesas, mais ou menos tímidas, do «contemporâneo», como é o caso de Giorgio Agamben num ensaio famoso, e de muitos outros que vão descobrindo que o “fim da história” mais não é do que a urgência do presente. Este fenómeno tinha sido anunciado por Walter Benjamin como o surgimento de uma «actualidade universal e integral», a qual era o «reverso da actual crise e renovação da humanidade». O contemporâneo, e as suas aflorações – o actual, o presente, o agora, o instante, etc.,−  revela-se como sintoma de algo essencial. O problema resume-se em saber como, nestas condições, obstar à sacralização do existente, daquilo que domina e estratifica a existência, em modos repetitivos e dominadores. Mal ou bem, era nessa “abertura” que se baseava o fundo de verdade da teologia e das várias dialécticas e que ainda alimenta a filosofia da diferença ontológica de Heidegger. Muito depende da possibilidade de ultrapassar esta dificuldade, sem recair nas velhas estruturas metafísicas da história. Se porventura foram necessárias, constituem hoje um obstáculo para pensar as tarefas do presente. É essa viragem para o presente que faz de Alain Badiou um pensador iluminante. Para este filósofo trata-se de «medir o presente», enquanto «presença intensa», «centrado no acto… pois o acto, sendo potência intensa de começo, só é pensável no presente». A qualidade política e estética do pensamento liga-se assim ao questionamento do contemporâneo. De facto, já não se trata de uma questão do tempo, mas de limiares, de passagens, e, em geral, do descontrolo das forças que dominam o que pode aparecer e as formas em que aparece. O que é que chega ao presente e como? Que perigos e que possibilidade traz consigo? A chamada pós-historia mais não é do que o reconhecimento da dignidade ontológica do presente, mais a memória que o nimba como uma luz difusa. Toda a teologia e metafísica são um obstáculo à visão do actual, sempre visto como mero momento de passagem para a salvação, para a «emancipação», para a realização da ideia absoluta, etc. Contra o escapismo e a evasão, a arte constituiu uma alternativa decisiva para abrir o mundo a outras possibilidades, seria mesmo o princípio da não-coincidência consigo mesmo. Como refere Gertrude Stein, «The business of art is to live in the actual present, that is the complete actual present, and to completely express that complete and actual present». É sobre esta possibilidade que se edificaram inúmeras utopias estéticas e políticas. Mas a solução estética, sendo modelar, é insuficiente. A pressão sobre o existente, a crise das suas estruturas rígidas e repetitivas, afecta tudo e todos os domínios. Como refere Carl Einstein, «a selecção e avaliação das épocas originam-se e explicitam-se no presente, através da sua estrutura e potência. Não se pode assim falar de uma história única e objectiva, pois toda a conceptualização da história equivale a uma perspectiva aberta a partir do ponto focal do presente». A história é uma a tarefa do presente, e este deve dar-lhe sentido e reorientá-la, nos mais pequenos actos, aqui e agora. Visar a inteireza do presente, o seu aspecto completo, implica que o existente está em movimento, não para fora de si, nem no tempo, mas num estranho movimento que ainda é difícil de apreender, que se dirige para si próprio, numa estranha materialidade de acrescentos e subtracções, de transfigurações quase imperceptíveis. O único critério para pensar é a urgência do momento, os perigos que se perfilam (M. Foucault), as tensões que abismam as lógicas repetitivas. Neste VI Ciclo Internacional de conferências ECATI/MCB, vários especialistas de áreas que vão da filosofia à ciência, da arte à política, interrogarão a contemporaneidade das suas disciplinas e as vias por que se encaminham.

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